sexta-feira, 6 de março de 2015

Mãe, a culpa é sua.

Desde segunda-feira, 2, circulam pelas redes sociais alguns links, postagens e comentários que têm um ponto em comum. Um ponto que está sendo negligenciado em função de uma cegueira social bem séria e importante, cujas consequências vão muito mais longe do que a gente pensa. Este curto post tem, portanto, somente um objetivo: trazê-lo à tona e chamá-lo à conversa. Não pretende discutir ou aprofundar. Pretende perguntar. Apenas isso.

O estudante de engenharia elétrica Humberto Moura Fonseca morreu por overdose de bebida alcoólica, no último sábado, na cidade de Bauru, em uma festa universitária. O jornal O Estado de S. Paulo publicou então nesta quarta-feira, 4, uma breve entrevista com a mãe do estudante. A ela foram feitas perguntas como "A senhora sabe em que circunstâncias seu filho morreu?", "A senhora tomou alguma providência?", "A senhora sabia que seu filho consumia bebida alcoólica?".

O portal Pragmatismo Político repercutiu na terça-feira, 3, uma entrevista feita pela Revista Crescer com a senhora Olinda Boturi. Ela é mãe de Jair Bolsonaro, deputado federal pelo PP do Rio de Janeiro, aquele sujeito com claros problemas emocionais, éticos e humanos, e que vem colecionando afirmações terrivelmente absurdas contra grupos oprimidos, especialmente contra nós, mulheres, lutando para que tenhamos salários menores - como se isso fosse necessário, como se isso já não acontecesse - em função da possibilidade que temos de engravidar, entre insanidades advindas de profundos desvios de empatia. Dona Olinda afirma veementemente que nunca o maltratou, que nunca defendeu que crianças apanhassem e que crianças devem ser educadas com conversa. E que não consegue entender o atual comportamento impulsivo e bruto de seu filho, que era uma criança "digna, amorosa, humilde, mansa, reservada, quieta"...

Uma empresa pertencente a (como eu posso definir Luciano Huck? Socialite? Apresentador? Comediante? Empresário? Sem noção? Caçador de polêmicas baseadas em preconceito e discriminação? Dono de pousada em Área de Proteção Ambiental?) colocou à venda camisetas supostamente "infantis" com dizeres como "Vem ni mim que eu tô facin", utilizando crianças como modelos. Os grupos feministas e de defesa das crianças vieram todos a público repudiar esse extremo mau gosto e falta de noção, que vulnerabiliza e expõe as crianças, e a pressão popular causou a retirada do anúncio do ar. Tão rápida e ostensiva quanto a veiculação e divulgação desse detestável anúncio também foi a exposição do rostinho das crianças. E tão logo isso aconteceu, lá veio o tribunal inquisidor culpar não a empresa, mas as mães das crianças, com perguntas como "Onde está a mãe dessa criança que permitiu isso?!".

As perguntas feitas à mãe do estudante morto no sábado foram extremamente culpabilizantes. Vejo não um jornalista as fazendo, mas um investigador policial. O tom das respostas de Dona Olinda são de justificativa, de busca de uma suposta mea culpa, até mesmo de melancolia. E não sei como estão se sentindo agora as mães das crianças em cujas camisetas brancas e sem dizeres foram aplicados, posteriormente, com ferramentas digitais, os dizeres absurdos da empresa de Huck, ao se virem culpabilizadas pelo Tribunal Inquisidor Feicibuqueano.

Então, eu só gostaria de fazer algumas perguntas: E OS PAIS? E os homens? Cadê eles em todas essas histórias? Por que o foco nas mães? Onde estão os homens criadores? Onde estão os homens cuidadores? Cadê eles na conversa? Onde eles estão? Onde estavam? Quem são? Onde vivem? O que estão fazendo? De quem a sociedade quer que seja toda a culpa?

Mas, calma. Tenhamos calma. Não sejamos feminazis, xiitas, radicais. Estamos na semana do Dia Internacional da Mulher e vamos ganhar muitas, muitas flores. E descontos para produtos de beleza a fim de ficarmos mais atraentes. E duas depilações por uma. E bombons diet. E as flores do tiozinho que as oferece nos bares para o cara honrar a namorada que está ao lado vão vender como água. E vai ficar tudo bem, não vai?
Não. É claro que não vai.
Porque enquanto assim for, assim será.

Fim do post.
Ah, e uma feliz Semana da Mulher pra você.

(ELA TEM RAZÃO, A RESPONSABILIDADE TEM QUE SER DIVIDIDA, NÃO DA PRA "POR A CULPA" SÓ NA MÃE. O HOMEM TAMBÉM TEM QUE PARTICIPAR, EU PROCURO PARTICIPAR DA VIDA DAS MINHAS FILHAS, UMA MORA EM SÃO PAULO, A OUTRA NO RIO, MAS EU PROCURO ESTAR PRESENTE NA VIDA DELAS, MESMO A DISTANCIA).

Ligia Moreiras Sena é cientista. E mãe. Autora do blog Cientista Que Virou Mãe e do livro "Educar sem violência - criando filhos sem palmadas".

Fonte: http://www.brasilpost.com.br/ligia-moreiras-sena/mae-a-culpa-e-sua_b_6802064.html?utm_hp_ref=brazil

quinta-feira, 5 de março de 2015

Garoto que Filmou Namorada fazendo Boquete Apanha da Mãe.

Juro que eu ia postar outra coisa... mas depois dessa, tive que mudar de ideia...rsrs
Parabéns pra essa mãe, essa sabe criar um filho, quem sabe ele um dia se torne um homem melhor.

quarta-feira, 4 de março de 2015

O que aconteceria se você olhasse nos olhos de quem ama por 4 minutos sem parar?

Por carol_patrocinio | Preliminares

Parece loucura, mas o teste foi feito com seis casais: dois desconhecidos e casais juntos há quatro encontros, um ano, cinco anos, dois anos de casamento e 55 anos de parceiria. Como você reagiria se tivesse que ficar ali, apenas olhando para a pessoa que escolheu ter ao lado, por quatro minutos ininterruptos?

A teoria diz que quando casais se olham por quatro minutos as chances de se apaixonar ainda mais são enormes. E ao assistir ao vídeo pode-se imaginar porque. Quando apenas olhamos o outro, sem discussões, brigas, planejamentos financeiros ou do final de semana, vemos tudo aquilo que o outro representa para nós. Quando olhamos o outro vemos muito mais do que a aparência, mas todos aqueles sentimentos que o outro faz brotar em nós mesmos.


Quando foi a última vez que você apenas olhou nos olhos de quem você ama?

Fonte: https://br.mulher.yahoo.com/blogs/preliminares/o-que-aconteceria-se-voce-olhasse-nos-olhos-de-162543820.html

terça-feira, 3 de março de 2015

Custom Gender: Facebook Brasil lança ferramenta de personalização de gênero.

Os usuários do Facebook agora contam com uma nova opção na hora de preencher as informações de perfil dentro da rede social. Na categoria gênero, além dos tradicionais masculino e feminino, o Facebook Brasil acaba de disponibilizar a ferramenta de Custom Gender - em português, personalização de gênero.

A alternativa - em funcionamento desde fevereiro de 2014, nos Estados Unidos -, possibilita ao usuário a escolha do gênero em que "melhor se encaixa", reforçando a maior capacidade do usuário em se "expressar completamente dentro da plataforma", disse Bruno Magrani, líder de políticas públicas do Facebook Brasil.

E como funciona?

Para ativar a nova função, basta acessar o Facebook, clicar na opção Sobre do perfil e depois, no lado direito da tela, a opção Edite suas configurações básicas de contato.

No tópico gênero, ao clicar em Personalizado o usuário pode escolher entre as mais de 50 opções indicadas pelo Facebook, ou, se preferir, estabelecer um gênero "próprio", de acordo com a escolha do usuário.

Caso não se sinta confortável ou decida "se assumir virtualmente" para um grupo específico de amigos no facebook - familiares, colegas de trabalho, etc... -, o usuário pode ativar a função de controle de visibilidade.

Drag Queen ou Travesti?

Com 92 milhões de usuários ativos no Facebook, o Brasil é o segundo país da América Latina a receber a atualização da ferramenta.

Assim como na implementação do Custom Gender na Argentina - o primeiro país latino a ativar a função, ainda 2014 -, todo o processo de personalização da plataforma foi feito em parceria com grupos e representantes da comunidade LGBTTT.

No Brasil, entidades como a Articulação Nacional das Travestis, Trasexuais e Transgêneros do Brasil, a Antra, além de nomes como o transsexual João Nery, a cartunista Laerte Coutinho, a socióloga Berenice Bento e o deputado federal Jean Wyllys foram convidados para trabalhar na construção da lista de gêneros nacional.

"Era inadmissível que as pessoas transsexuais estivessem pela metade nas redes sociais", disse o Wyllys, que interpreta a ativação da ferramenta como um importante "ato político" para o maior reconhecimento da comunidade LGBTTT no Brasil.

O Deputado aproveitou o próprio Facebook para publicar um vídeo em que comenta o lançamento da ferramenta:

Post by Jean Wyllys.

Segundo Magrani, o Facebook vai ficar atento para que ações marcadas pelo discurso de ódio ou uso de termos "ofensivos" na personalização do gênero não sejam usados dentro da plataforma.

Além de Argentina e Brasil, fora dos Estados Unidos a ferramenta pode ser encontrada no Reino Unido, Canadá, Austrália, Espanha, França, Itália, Alemanha e Dinamarca.

Fonte: http://www.brasilpost.com.br/2015/03/02/_n_6785998.html?utm_hp_ref=brazil

Calores femininos.

(Dráuzio Varella)

O sofrimento da menopausa pode durar mais do que você esperava.

A chegada da menopausa é a fase das ondas de calor alternadas com arrepios de frio, diminuição da libido, ressecamento e flacidez da pele, queda de cabelo, astenia, secura vaginal, irritação, labilidade emocional, depressão e ansiedade.

Embora a maioria experimente esse cortejo de sintomas, para algumas mulheres eles são de pequena intensidade, às vezes quase imperceptíveis. Em compensação, há casos em que são devastadores.

As ondas de calor são um suplício à parte. Em geral acompanhadas de vermelhidão no rosto e sudorese intensa, molham a roupa em momentos inadequados, criando constrangimento social. São amigas da noite e inimigas do sono reparador. Há mulheres despertadas por elas cinco, seis vezes durante a madrugada.

Com intensidade variável, esses sintomas vasomotores afligem 80% das mulheres. Por incrível que pareça, a duração desse fenômeno tão prevalente era mal conhecida, porque até aqui os estudos envolveram número pequeno de participantes acompanhadas por períodos curtos.

Nesta semana foi publicado na revista americana "JAMA Internal Medicine" o estudo mais completo sobre o tema: "Study of Women's Health Across the Nation (SWAN)" –em português, estudo nacional sobre a saúde da mulher.

No período de fevereiro de 1996 a abril de 2003 foram analisadas 1.499 mulheres na perimenopausa (fase que antecede a menopausa), recrutadas em sete centros dos Estados Unidos. Só foram aceitas as que haviam apresentado pelo menos seis episódios vasomotores nas duas últimas semanas e que nunca tinham feito reposição hormonal.

Em apenas 20% dos casos, os calores só começaram depois da parada das menstruações; em 66%, o início foi no período em que as menstruações se tornaram irregulares; e, em 13%, surgiram ainda na vigência de ciclos regulares.

A enorme surpresa provocada por esse estudo multiétnico e multirracial foi mostrar que pode ser longo esse período da condição feminina.

A mediana de duração das ondas foi de 7,4 anos. Quer dizer, em metade das mulheres não atingiu esse tempo; na outra metade ultrapassou-o. Nos casos mais extremos persistiram por 14 anos.

Outro achado original e inesperado: quanto mais cedo as ondas chegam, mais tempo levam para ir embora. Naquelas pacientes em que os primeiros calores surgiram na pré-menopausa ou na fase em que os ciclos estavam irregulares (perimenopausa), a duração média ultrapassou 11,8 anos. Já nas que não menstruavam mais quando eles se instalaram, foi bem menor: 3,4 anos.

A explicação mais provável está nas diferenças de sensibilidade dos centros de regulação térmica (situados no hipotálamo) à redução dos níveis de hormônios sexuais na circulação. Mulheres com sensibilidade exaltada apresentam sintomas mais precoces, por mais tempo.

As diferenças entre os grupos étnicos foram significantes: mulheres negras: 10,1 anos; latino-americanas brancas: 8,9 anos; brancas não latino-americanas: 6,5 anos; e asiáticas: 5 anos.

As razões para a variabilidade étnica não são conhecidas –podem estar relacionadas com a genética, as dietas e com a história reprodutiva.

As participantes em que os sintomas foram mais persistentes tenderam a ter menos anos de escolaridade, maior percepção do estresse e a ser mais depressivas e ansiosas.

Não está claro se a labilidade emocional e o estresse são causas ou consequências das ondas. Mulheres com vidas mais estressantes teriam percepção exaltada dos sintomas e sentiriam mais incômodo. Por outro lado, acordar diversas vezes durante a noite é causa importante de estresse.

A mesma ambiguidade entre causa e efeito cabe à relação com depressão e ansiedade: nas deprimidas e ansiosas, os sintomas persistem por mais tempo ou são causadores de depressão e ansiedade.

O estudo SWAN tem sido muito elogiado no ambiente científico. Com razão, é a pesquisa mais completa sobre a duração dos fenômenos vasomotores.

O que me causa espanto é que só em 2015 ficamos sabendo que eles duram em média mais de 7 anos, tempo que pode chegar a 14 anos e a mais de 11 anos nas mulheres que começaram a senti-los enquanto ainda menstruavam.

O desconhecimento enciclopédico desse aspecto da fisiologia humana só tem uma explicação: acontece com as mulheres.

(ISSO DEVE SER MUITO COMPLICADO, AS QUE TIVERAM SORTE, FICARAM, APENAS, 3,4 ANOS COM OS SINTOMAS, ALGUÉM FAZ IDEIA DO QUE É FICAR 3 ANOS E MEIO SENTINDO ONDAS DE CALOR? (ENTRE OUTRAS COISAS)

ENTÃO IMAGINE PASSAR MAIS DE 10 ANOS SENTINDO ISSO... NINGUÉM MERECE... SÓ AS MULHERES CONSEGUEM SUPORTAR ISSO... UM HOMEM NÃO AGUENTA...

CONCORDO QUANDO ELE DIZ QUE SE O PROBLEMA FOSSE DOS HOMENS, ELES JÁ TERIAM DESCOBERTO ALGO PRA RESOLVER, MAS AINDA NÃO ENCONTRARAM NADA PRA RESOLVER A CALVICE....RS)

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2015/02/1592475-calores-femininos.shtml

segunda-feira, 2 de março de 2015

Misoginia na internet: como o Estado deve identificar e punir os machistas virtuais.

Hostilidade e assédio não são novidade para as mulheres que se aventuram pela internet, da mesma forma que não são raras no mundo offline. Mas tem impressionado a intensidade do rancor machista nos foruns de discussão, conhecidos como chans e imageboards. Vamos pressupor que já há todo o debate sobre a forte misoginia que há na internet, bem como sobre a importância de fomentar uma cultura mais amigável às mulheres. Podemos ir além e começar a discutir a fundo outra questão: como identificar e punir quem propaga o ódio contra mulheres na internet?

No ano passado, a misoginia online entrou na roda com o chamado "gamergate": diversas mulheres na indústria dos jogos, principalmente as desenvolvedoras Zoe Quinn e Brianna Wu, além da blogueira Anita Sarkeesian, foram alvo de uma onda de ataques machistas. No Twitter, no Reddit e em imageboards como o 4chan, as mulheres receberam ameaças de estupro e morte. Mais recentemente, a ex-colunista da revista Jezebel, Lindy West, apareceu no programa This American Life, acertando as contas com o mais sádico dos trolls que a assediam diariamente: um homem que criou um fake do recém-falecido pai dela para ofendê-la no Twitter. E ainda há a jornalista australiana Alanah Pierce, que ficou famosa por enviar printscreens das ameaças que recebia para as mães de seus assediadores, em sua maioria adolescentes.
(É COMO DIZ UMA AMIGA MINHA, QUASE TODOS OS HOMENS FORAM CRIADOS POR UMA MULHER, ENTÃO POR QUE ELAS NÃO OS ENSINAM A RESPEITAR AS MULHERES?)

Há algumas semanas, aqui no BrasilPost, a jornalista Ana Freitas publicou um texto sobre misoginia em chans e imageboards brasileiros. Nos comentários da página, as manifestações de algumas pessoas -- principalmente homens, mas não só (ISSO É QUE É DURO, AS PRÓPRIAS MULHERES CRITICAM) -- confirmaram perfeitamente as críticas expostas no texto. Para esses comentaristas, pedir respeito é "mimimi" e as mulheres seriam aceitas nesses espaços desde que não se identificassem publicamente como mulheres. Nada contraditório vindo de quem, por exemplo, se refere a mulheres como "depósito de esperma".

Sem entrar na discussão sobre a utilidade das sanções penais como forma de reparar a ofensa e evitar novas condutas antissociais (não é o melhor caminho que a humanidade poderia construir, mas é o que existe hoje), é inevitável que a empatia com o sofrimento dessas mulheres nos leve a indagar como punir essas pessoas. Qual o caminho a seguir? Devemos monitorar todos os fóruns online? E qual o peso deve ser conferido à punição? O Estado Brasileiro deve cuidar de perseguir penalmente esses criminosos?

Não há no Brasil previsão para a sanção por ofensas baseadas na discriminação por gênero, ao contrário do que ocorre, por exemplo, com a Lei nº 7.716/89, que trata de preconceito de raça e religião. No caso da Ana Freitas, assediadores chegaram a descobrir seu endereço e passaram a enviar pelo correio objetos comprados com cartões de crédito roubados. As outras mulheres citadas também tiveram roubados seus dados pessoais, cuja proteção ainda não tem disciplina legal no Brasil. Ainda assim, certas ações e mensagens podem ser consideradas condutas criminosas. Os xingamentos podem ser enquadrados como o crime de injúria; ameaças de estupro e morte também configuram crimes previstos no Código Penal.

Aplicar uma punição individualizada às pessoas que cometem esses crimes exige, antes de tudo, identificá-las e, portanto, enfrentar a questão do anonimato. E a possibilidade de navegar sem necessariamente ter que se identificar é um dos pilares da internet como a conhecemos.

Em parte, o anonimato é um dos aspectos que mais contribui para o potencial da internet inclusive como ferramenta de ação política. Pelo mundo inteiro, ativistas dependem da ocultação de suas identidades para falar livremente. E se hoje a internet é um canal de produção cultural fervilhante, isso se deve em certa medida ao caráter quase sempre anônimo da cultura do remix. Diante disso, faz sentido abrir mão do anonimato para garantir a punição de quem comete crimes? É um dilema que merece reflexão e escapa a qualquer resposta fácil.

Nossa Constituição Federal garante a liberdade de expressão, mas impede o seu exercício no anonimato. É bastante comum que essa disposição seja apontada como o fundamento para que sempre se exija a identificação dos internautas. Contra essa posição, no entanto, nos parece mais correto pensar que a finalidade da norma é permitir a responsabilização de quem fala. Daí, fica claro que a vedação ao anonimato não significa autorizar a vigilância em massa de todos os passos de todo mundo. O essencial é que seja possível atribuir a uma pessoa certa uma conduta ilegal específica, apenas quando e se ela ocorrer.

Além disso, o que fazemos na internet não é completamente anônimo. Mesmo que em geral não precisemos apresentar nosso RG, o tempo todo deixamos rastros digitais que podem ser seguidos. E as forças policiais de todo o mundo sabe bem disso. Até a promulgação do Marco Civil da Internet, o entendimento no Judiciário era que a requisição dos dados de conexão nem mesmo dependia de uma decisão judicial. Ou seja, o próprio delegado, durante um inquérito policial, poderia acessar dados de qualquer pessoa e invadir sua privacidade sem a supervisão da Justiça, sem respeito ao devido processo legal.

Pense que metadados são sensíveis e o quanto o big data permite inferir sobre a vida de uma pessoa. É assustador que qualquer autoridade policial pudesse decidir de forma unilateral pela quebra de sigilo. Não foi justamente por isso que o Snowden teve que se exilar na Rússia ao delatar os abusos da NSA e da agência britânica de espionagem?

As mudanças trazidas pelo Marco Civil, exigindo ordem judicial, estão na contramão da tendência mundial de aumentar a vigilância sobre a internet (ainda bem!), e por isso são acusadas de dificultar as investigações de crimes online. Mas a busca pela punição eficaz não pode enfraquecer garantias institucionais dos cidadãos e das cidadãs. É necessário que as investigações tenham alvos individualizados e definidos em vez de afetar a sociedade inteira. Por isso, é tão importante o modelo estabelecido pela nossa "Constituição da internet".

O medo leva ao vigilantismo. Não podemos aceitar nos render à tentação de comprometer a liberdade na internet em função de promessas ilusórias de mais segurança. Por outro lado, tampouco podemos ignorar que a internet é um ambiente em que se cometem violências. Ela não é um mundo separado do nosso, mas apenas uma outra interface para a interação real entre as pessoas. É por isso que nela reproduzimos o machismo, o racismo, a homofobia e todas as outras discriminações que enfrentamos no nosso cotidiano. Para esses casos, o anonimato não pode ser protegido, mas isso não significa que as garantias da presunção de inocência e da proteção à privacidade devam ser desconsideradas de forma ampla e generalizada.

Ou nas palavras do manifesto As Novas Dicas, "Se nós quisermos que nosso governo desista [de violar nossa privacidade], o acordo tem que ser que se -- quando -- o próximo ataque vier, nós não podemos reclamar que eles deveriam ter nos vigiado mais duramente".

(É UMA SITUAÇÃO COMPLICADA, O ANONIMATO É UM DIREITO, MAS TAMBÉM ALIMENTA ESSE TIPO DE COMPORTAMENTO, É MUITO FÁCIL AGREDIR ALGUÉM, QUANDO SABEMOS QUE NADA VAI NOS ACONTECER.

A IMPUNIDADE CATALISA ESSE TIPO DE COMPORTAMENTO, E ISSO VALE PARA TUDO MAIS QUE SE COMETE NESSE PAÍS.

EU TENHO UMA TEORIA, POR QUE SERÁ QUE NINGUÉM ULTRAPASSA UM CARRO NUMA CURVA? POR QUE PODE VIR UM CARRO EM SENTIDO CONTRÁRIO E BATER DE FRENTE – TODO MUNDO MORRE. OU SEJA, TEM PUNIÇÃO, E NESSE CASO, NÃO TEM ADVOGADO, NÃO TEM JURI, JUÍZ, TRIBUNAL, NEM APELAÇÃO, A PUNIÇÃO VEM NA HORA. QUAL É O RESULTADO: NINGUÉM ULTRAPASSA, POIS EXISTE A PUNIÇÃO.
ONDE NÃO EXISTE A PUNIÇÃO, EXISTEM OS ABUSOS.

SE VOCE ENTRA NA NET PRA CONVERSAR, SE DISTRAIR, ESTUDAR, JOGAR, ETC. SE VOCE NÃO TEM A INTENÇÃO DE AGREDIR NINGUÉM, QUAL É O PROBLEMA DE SE IDENTIFICAR? ISSO É QUE NEM USAR AQUELAS MÁSCARAS NOS PROTESTOS, SE VOCE FOI EXERCER O SEU DIREITO DE PROTESTAR, E PROTESTAR PACIFICAMENTE, PRA QUE A MÁSCARA? SE VOCE PRECISA ESCONDER O ROSTO, VOCE NÃO FOI PROTESTAR, FOI COMETER VANDALISMO).

Fonte: http://www.brasilpost.com.br/ibidem/misoginia-na-internet-com_b_6775474.html?utm_hp_ref=brazil

domingo, 1 de março de 2015

50 Tons de Cinza: 'Precisamos de livros e filmes que mostrem uma mulher apanhando?'

Por Thais Zimmer

Não é nada do que você já não tenha lido antes, mas é sempre bom relembrar. Com o lançamento do filme 50 Tons de Cinza, o tema sexualidade feminina volta a ser abordado. E é impossível falar dele sem citar a luta das mulheres. E vice-versa. Lembro exatamente da náusea que senti ao passar os olhos pelos dois primeiros parágrafos do livro. Naquela noite, não passou disso. Era uma literatura porca, com frases mal construídas.

No outro dia, nova tentativa. Dividida, engrenei na história ora enojada pela má escrita, ora frustrada com a construção da mulher naquela protagonista. Quando alguém me dizia que o livro era ótimo, eu não entendia exatamente a que a pessoa estava se referindo - e sentia medo de perguntar. "Cinquenta Tons" acabou dividindo as pessoas em dois grupos em 2012, quando o livro foi lançado: as que o amavam e as que odiavam.

Sim, você pode me perguntar, e Henry Miller? E Charles Bukowski? E outros autores eróticos e pornográficos? Não feriam a imagem da mulher? Acho que não. Era outro contexto social. Mesmo nas visões masculinas, a mulher não aparecia de forma inferior. Ela não era submissa. Ela enchia a cara e não precisava de um homem pra limpar o seu vômito e lhe dar banho. Nesses relatos, ela era independente. Alguém pode me atirar uma pedra por escrever isso, mas a distinção de sexo, se analisada profundamente nesses dois autores, era quase nula. Em muitas situações, esses dois autores é que ficavam à mercê das mulheres - sempre construídas com personalidades fortes.

E L James propicia um livro sobre sexo para o universo feminino, mas ela traz mais do que uma simples contribuição literária. Ela traz a imagem de uma mulher frágil, envergonhada, nervosa, que se acha feia e insegura. Ela cria uma situação em que o homem bonito e rico tem poderes além de materiais. Ela inventa um contrato de submissão feminina e aprofunda o sadomasoquismo, o que é lido por mais de 100 milhões de pessoas. Sim, há paixão, ainda que o personagem Christian Grey negue no decorrer da trama. Mas essa construção da mulher, especificamente, é muito emblemática.

Será que neste momento, num período de luta contra o machismo, contra o estupro e a favor do aborto, as próprias escritoras mulheres não deviam pensar nessa causa ao publicar obras eróticas? Será que, quando o livro toma essas proporções, o movimento não fica prejudicado? 50 Tons de Cinza pode e deve ser usado para repensar a sexualidade da mulher, mostrar que ela deve se libertar na cama, sim, mas será que essa compreensão mais profunda não se perde no estereótipo raso que E L James construiu a partir de Anastasia?

Gostaria de dizer que não. Mas hoje e nos próximos dias as pessoas vão lotar os cinemas pra assistir uma história em que a mocinha inocente se submete ao galã rico. Parece que vivemos nos anos 20, não? Talvez, na prática, pouco tenha mudado de lá pra cá. Gente, os números ainda são alarmantes. Em matéria publicada pelo G1, pesquisas mostram que a cada quatro minutos uma mulher é vítima de agressão no Brasil. Para 75% dos entrevistados, as agressões quase nunca ou nunca são punidas. Outra pesquisa do Ipea mostra que a cada 1h30min ocorre um feminicídio no Brasil.

É muito provável que você conheça alguém que apanha ou alguém que se submete ao namorado ou marido. Talvez essas pessoas apenas não assumam. E não são somente as mulheres mais velhas. Tem menina de 20 anos, tal como a Anastasia de 50 Tons, que deixa tudo de lado pra viver para o seu par. Tem mulher de 30 sofrendo calada. Ou seja, precisamos, neste e em qualquer outro momento, de livros e filmes que mostrem, sem criticar ou discutir, uma mulher apanhando?

Fonte: http://www.brasilpost.com.br/thais-zimmer-martins/por-favor-mulheres-nao-de_b_6706906.html?utm_hp_ref=mulheres